SOFRIMENTOS DE VERÃO
 

O adepto de futebol é, por natureza, um sofredor. Sofre nas vésperas do jogo, antecipando o que vai acontecer, inventando todas as alegrias que o seu cérebro ansioso prevê, sofre durante o jogo, como se o seu olhar tivesse força para desviar aquela bola para dentro da baliza, sofre depois do jogo, quando os seus sonhos se desfizeram numa derrota que dói durante toda a semana.

Mas este é um tipo muito peculiar de sofrimento; é um sofrer quase alegre, um sofrer de paixão que, com o seu pozinho de masoquismo, nos mantém vivos e felizes.

Depois vem a pior das dores: a falta do sofrimento. Com o aproximar do verão, lá se vai a bola e o pobre sofredor deixa de roer as unhas, deixa de sonhar com o jogo do próximo domingo, deixa de ter razões para sorrir. Porque o pior dos sofrimentos é este vazio!

Quando se trata de um bracarense, o mês de Maio é talvez o mais doloroso: o mês em que vemos os outros serem campeões e ganharem taças. Mas terá isto que ser assim tão doloroso? Temos de nos convencer que não. Temos de enquadrar o nosso crescimento nos limites do razoável e encarar os nossos feitos como vitórias sobre o nosso próprio passado. Hoje somos mais fortes que ontem. Mas não é por haver clubes mais ganhadores que o nosso que se justifica qualquer sentimento de inferioridade. Como em tudo na vida, também no futebol devemos encarar bem de frente o nosso maior adversário: as nossas limitações. E lutarmos contra elas.

Nesta altura em que tanto se fala de contratações e transferências é nestes termos que temos de pensar: fazer melhor que no passado; cultivar as nossas virtudes e evitar os erros cometidos. Por exemplo: um dos erros que cometemos na época passada foi, sem dúvida, a inclusão no plantel de vários jogadores em final de carreira. Será que vamos cometer o mesmo erro? Em Braga temos exemplos brilhantes de sucesso da juventude bracarense. Não deveria o S. C. de Braga, também, investir com mais vigor nos jovens valores? É sabido como as finanças da SAD dependem da venda de activos. Mas se continuarmos a adquirir jogadores em final de carreira, que receitas iremos encaixar nos próximos tempos? A televisão, a bilheteira e o quase virtual merchandising chegarão? É claro que não! O S. C. de Braga, se prosseguir o ritmo de crescimento dos últimos tempos poderá, dentro de poucos anos, lutar ombro a ombro com os que se dizem “grandes” . Mas para isso, os nossos adeptos, principalmente os mais jovens, precisam de ícones, de ídolos, como os saudosos Perrichon e Karoglan. E não são os jogadores em final de carreira, que já “queimaram a pólvora” nos tais “grandes” que se transformarão nesses ícones do emblema dos castelinhos que a juventude bracarense precisa de ter como ídolos.

Não poderia terminar este texto sem uma referência a novos feitos que engrandecem o desporto bracarense: depois do título de Campeão Nacional de seniores, o ABC foi campeão em juniores; o Hóquei Clube de Braga esteve a milímetros de ganhar a taça de Portugal depois de eliminar o campeão nacional; a equipa júnior de voleibol do S. C. de Braga foi novamente campeã nacional. O desporto bracarense está de parabéns. Braga é, neste momento, uma cidade ganhadora. O futebol sénior virá a seguir. Assim a vontade dos bracarenses o queira.

 

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 31 de Maio de 2007