RECORDAR É VIVER
 

O S. C. de Braga jogou ontem para a Taça Uefa. No momento em que escrevo, o jogo ainda não se disputou. O leitor (coisa curiosa) já conhece o resultado, ao contrário do que se passa comigo.

Como não posso pois conversar consigo sobre este importante desafio, convido-o a viajar comigo no tempo. Depois das emoções de ontem à noite será talvez proveitoso recordar algumas coisas importantes que se passaram há 30 anos. Decorria a época de 1977/78. Recordo aquela magnífica equipa que, pela primeira vez na história do clube alcançou o quarto lugar no campeonato e na época seguinte disputou a Taça UEFA pela primeira vez.

Eram tempos difíceis; tempos de desordem, mas, pior ainda, de míngua. Muitas vezes só no Picoto conseguia ver os meus craques, de preferência em cima de uma árvore. Era a bancada dos pobres, jocosamente apelidada de “terceiro anel”, onde se aglomeravam centenas de braguistas menos afortunados.

Mas o que me ficou mesmo na memória foi a equipa. E que equipa! Na baliza alinhava o Conhé; tratava-se de um guarda-redes capaz do melhor e do pior, que tanto colocava o tribunal com o coração nas mãos como encantava com defesas impossíveis, quando disparava em voo de falcão para o canto superior da baliza, socando com raiva aquela bola que já todos julgávamos lá dentro. Do lado direito da defesa jogava o Artur, um jogador de estatura relativamente baixa mas tremendamente eficaz. Artur foi o primeiro de uma série de laterais direitos brilhantes, como Toni, Zé Nuno e Luís Filipe. No centro da defesa, dois homens de aço: Ronaldo e o matulão barbudo Fernando, um defesa intransponível. O lateral esquerdo era o Vilaça, um jogador franzino mas muito rápido, uma espécie de rato atómico.

No meio campo pontificava um jogador de excepção, um homem que sem ser grande de estatura era (e é) um enorme desportista: Carlos Garcia. Era o dono e senhor daquele meio-campo, um motor de enorme cilindrada que funcionava a cento e muitas octanas.

Mas era lá na frente que alinhavam as estrelas que ficaram para sempre no firmamento braguista: quatro avançados impressionantes. Eram eles os fabulosos Nelinho, Chico Gordo, Chico Faria e Lito. Nelinho, o carequinha, era o mais cerebral, talvez por ser o mais experiente (tinha sido internacional pelo Benfica). Chico Faria era um portento de técnica. Jogava a extremo esquerdo e parecia uma gazela levando atrás de si os desesperados defesas adversários. Do outro lado alinhava o Lito. Era uma máquina de grande cilindrada com aspecto de Fiat 600. Naquele estilo aparentemente desajeitado, o magricelas escurinho fintava com os olhos postos na baliza. Aquelas correrias do Chico e do Lito ficar-me-ão para sempre entre as memórias mais bonitas da minha juventude. No meio jogava aquele que mais vezes fez abanar o granito do 1º de Maio; aquele que fazia tremer o Picoto com golos e mais golos; o maior goleador da história do Braga: o bulldozer Chico Gordo. Corpulento mas ágil; duro como uma pedra mas artista quanto baste, Chico Gordo arrastava tudo à sua frente, irrompendo pela área como um furacão, só parando quando a rede abanasse.

Recordo finalmente aquele 13 de Setembro de 1978 quando esta brilhante equipa derrotou o Hibernians por 5-0 com quatro golos do Grande Chico Gordo e um do Lito. A jogar com quatro avançados, sob as ordens de Imbelloni, aquele era um Braga sem medo, com arte e coragem, que ganhava e dava espectáculo. Hoje os meios são outros. O futebol evoluiu, mas terá sido no melhor sentido?

Ao nível táctico, o futebol intelectualizou-se. Ao nível do dirigismo, mercantilizou-se. Quanto ao público, fanatizou-se. Globalmente, descaracterizou-se. É cada vez menos um desporto, cada vez mais um negócio, um refúgio para compensação de frustrações ou uma plataforma de lançamento para a satisfação de ambições pessoais. Dentro do campo, as estratégias rígidas de contenção e povoamento do meio campo assassinaram aquela alegria com que quatro ou cinco avançados faziam do golo a verdadeira meta do jogo.
 

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 15 de Março de 2007