Porque é que não vamos à bola ?
 

No passado fim-de-semana disputou-se um jogo da Liga em que estavam em confronto os dois actuais candidatos ao quarto lugar: U. de Leiria e S. C. de Braga. Nas bancadas, o habitual: uma assistência que, para um jogo destes, só não foi fraquíssima devido à presença de muitos adeptos do Braga.
Cá pela nossa cidade fala-se muito da fraca adesão do público ao Municipal de Braga. E quando o assunto vem à baila, é incontornável a comparação com os nossos vizinhos de Guimarães, que conseguem colocar mais de 15.000 adeptos num jogo da Honra.
Eu penso que um dos nossos maiores problemas tem sido a comparação com o Vitória de Guimarães. Na verdade trata-se de um caso à parte, fruto de um trabalho continuado de muitas décadas. A comparação com o Vitória leva-nos, evidentemente, à angústia que o presidente da SAD sentiu e que nós partilhamos. Mas o futebol português não é só o Vitória. Se nos compararmos com os outros clubes da superliga excepto os “tais” três, veremos que somos o clube mais bem colocado para alcançar o estatuto de quarto clube português, pelo menos em termos de dimensão humana: o Braga é, de longe, o quarto clube da Superliga com maior número de adeptos no estádio. É por aí que devemos pegar. É a partir daí que devemos começar. Com calma e acima de tudo com um projecto de futuro.
O mal das fracas assistências é real; para nós também, porque todos gostávamos de ver o Municipal com mais público. Mas o problema é global; se nós estamos mal, que dirão o Boavista e o Belenenses, que têm tido assistências muito inferiores à nossa?
Vejamos alguns números extraídos do jornal “O Jogo”, quanto à média de espectadores nos jogos da Liga na presente temporada: Académica 7.121; Aves 3.133; Beira Mar 4.018; Belenenses 4.400; Boavista 4.947; Marítimo 3.937; Leiria 2.616. Quanto ao S. C. de Braga, a média de espectadores é de 11.135, claramente à frente de todos os outros clubes com excepção dos grandes.
É claro que o facto de outros clubes terem ainda mais problemas que nós não é razão para deixar de enfrentar a situação. A realidade é que em Portugal vai-se pouco à bola. Se compararmos a nossa situação com a de campeonatos europeus com os quais queremos competir, encontramos números muito diferentes dos nossos. Se verificarmos, por exemplo o campeonato francês, que nem é dos mais mediáticos, encontramos números que variam entre os 10.000 e os 40.000 espectadores por jogo. O último classificado, o Sedan, teve no passado fim-de-semana 12.000 pessoas no seu estádio.
Em Portugal a variação do número de espectadores de uma semana para a outra é enorme. Se o clube faz um resultado excelente, na partida seguinte tem uma excelente “casa”. Mas se sofre um desaire, o número cai abruptamente. Talvez noutros países não se levem as derrotas tão “a peito”. Nós levamos muito a sério um desaire. Em Espanha, por exemplo, vive-se a emoção do futebol como em nenhum outro sítio. No entanto, ficamos com a sensação de que os adeptos ultrapassam mais facilmente as derrotas e é por isso que vemos estádios cheios, em clubes mal classificados. Talvez o que leva um espanhol ou um inglês ao futebol não seja só a vontade de ganhar mas já um hábito, algo que já faz parte da sua rotina semanal e que não se altera com as derrotas.
No entanto, quando nos confrontamos com estas disparidades esquecemos com frequência os dados explicativos mais simples: a França tem 62 milhões de pessoas, a Itália 58, a Espanha 40 e a Inglaterra 61 (fonte:
www.cia.gov ). Como é óbvio, o “campo de recrutamento” em Portugal é muito menor, com os nossos 10 milhões de almas.
Além disso, há a questão económica. Tomando como indicador o PIB per capita, a nossa situação é bem inferior à dos quatro países referidos: Portugal - 18.503 dólares; Espanha - 23.627; França - 27.738; Itália - 28.760 e Inglaterra - 28.938 (fonte: wikipédia). Como o futebol não é propriamente um passatempo barato, estes números também nos podem ajudar a compreender esta realidade.

 

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 22 de Março de 2007