EU NÃO EXISTO
 

Há uns tempos atrás houve alguém que escreveu num jornal desportivo uma pérola deste género: o S. C. de Braga é um clube sem adeptos; eles são, em primeiro lugar benfiquistas, sportinguistas e portistas. Trata-se, como é bom de ver, de uma tese divertida. Mas, no passado sábado, uma outra pessoa escreveu, num outro jornal desportivo, uma preciosidade um pouco menos radical mas igualmente cómica: que Braga é uma cidade noventa por cento benfiquista. Reparem na meticulosidade do escriba: ele não diz oitenta e nove nem noventa e um; diz exactamente noventa por cento. Às vezes os jornalistas são danados para a pândega. Ri-me a valer. Conseguem ser ainda mais engraçados que o Gato Fedorento ou a Ministra da Educação. Só é pena que o senhor não tenha dito, no rigor das suas contas, qual a percentagem de sportinguistas e portistas. Sim, porque eu, pessoalmente, conheço alguns. Digamos que uns cem. Se o amigo leitor conhecer outros cem já são duzentos. Não são muitos mas já são alguns. Se contarmos com os que não têm clube, que os há, podem crer, com jeitinho esta segunda tese vai dar o mesmo resultado da primeira, o que se torna ainda mais divertido: o Braga, de facto, não tem adeptos.
No entanto, sem adeptos absolutamente nenhuns quem eram as sete mil alminhas (mais as borlas) que estiveram segunda-feira na Pedreira? Benfiquistas não eram porque à mesma hora jogava o Benfica, transmitido pela TV em canal aberto. Seriam marroquinos, como dizem os nossos amigos de Guimarães? Braguistas não eram porque, segundo os senhores dos jornais desportivos, esses não existem! Seriam extraterrestres? Seriam ilusões de óptica? Embora isto dê imensa vontade de rir, o certo é que se trata de um assunto muito sério. Pelo menos para mim. Esta dúvida que avassalou a minha pessoa, leva-me mesmo a pôr em causa o sentido da vida, e até a natureza do ser. Porquê? Porque eu, que sou braguista de todos os costados, estive na pedreira! Eu, o braguista que não existe, estive no Estádio Municipal a ver o jogo! Serei eu um holograma, uma coisa que não é? Será que existo? Começo a duvidar. Como? O leitor também foi ver o jogo? Pois, caro amigo, então é melhor cuidar-se porque provavelmente é também uma ilusão, assim como se fosse um fantasma. Você, que está aí à mesa do café a ler o jornal, afinal, não existe…
Bem, mudando de assunto. Se há razões válidas para eu escrever aqui religiosamente todas as semanas, uma das mais fortes é esta: porque no Diário do Minho escrevem pessoas que admiro profundamente. Uma delas é, desde há muitos anos, Abílio Peixoto. Por isso não me surpreendeu nada o texto que nestas páginas foi publicado na passada terça-feira, sobre os preços anunciados pela SAD do Braga para o jogo frente ao Tottenham, na próxima quinta feira. Temos que concordar com o Presidente quando ele se queixa da baixa assistência no Municipal de Braga. Era possível, de facto, ter muito mais assistência aos jogos do Braga. Acontece que, praticando preços destes, entre 15 e 40 euros, dificilmente A. Salvador conseguirá melhorar a situação. Eu compreendo que há muita gente que gosta de pagar bem porque os saldos são para os pobres. Compreendo até que esta estratégia tenha como alvo este tipo de pessoas, que não gostam daquilo que é barato. Mas serão essas pessoas suficientes para encher o estádio? Receio bem que não. Com estes preços só lá vão os indefectíveis (da malta das borlas, talvez vá menos gente porque o Benfica joga no mesmo dia). A lógica é, portanto, esta: se só vão os indefectíveis e se estes pagam o preço que for fixado, então eles que paguem! Se não conseguimos aumentar o volume de compradores, aumenta-se o preço do produto.
Já imaginaram um hipermercado a aumentar os preços porque o concorrente tem mais clientes? Confesso que não compreendo esta lógica. Mas quem sou eu para compreender? Eu nem existo…

 

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 01 de Março de 2007