VIVA O S. JOÃO
 

Ora aí está de novo o S. João. Voltaram as porradas que não são com alho-porro mas com martelos chineses, as barracas de sardinha assada com vinho tinto carrascão, as tendas de artesanato africano, mantas marroquinas e relógios suíços da Tailândia. É a globalização a deixar marcas também na festa do Baptista. Pela Avenida abaixo, acima e outra vez abaixo deambulam os mesmos apaixonados de sempre, levantando as mesmas nuvens de poeira, respirando o mesmo monóxido de carbono do ano passado.

Neste tempo em que os futebóis dão folga, antes que o “S.” João que é o outro, o Pinto e seus pares voltem a atacar na pedreira, vamo-nos entretendo com estas folias para amansar o cansaço de um ano de crise, um ano de 34 milhões em estudos sobre a Ota só porque não se fez um estudo sobre a viabilidade dos estudos. E logo num país em que só quem tem estudos pode ser primeiro-ministro! Mas acabemos com o aparte antes que me deixe cair na armadilha do fenómeno “charrua”.

Dizia eu que esta época morta do futebol presta-se a festarolas. Veja-se, por exemplo, o que se passa nos jornais desportivos: é festa a valer! Num dia são dois reforços polacos e um argentino, noutro dia são três brasileiros, dois cazaques e um nepalês, etc etc. É assim a vida de quem não tem notícias de verdade para dar.

Só no plantel do S. C. de Braga, segundo estes jornais, já entraram dezenas reforços. Sinceramente esta “chuva” de notícias sem fundamento já não me impressionam nada, pela simples razão de que não as leio. E até acho piada a este género folhetinesco à maneira dos velhos e saudosos livrinhos policiais da colecção Vampiro. É sempre engraçado a gente tentar adivinhar quais são os dois ou três reforços que acabam por se confirmar entre as dúzias dos que são anunciados. Mas para o cidadão incauto que ainda lê o jornal com a ingénua convicção de que lá só vêm verdades, este fenómeno pode chegar a ser deprimente. Veja-se quantos sonhos desfeitos, quantas quimeras construídas na mente do pobre sofredor se desfazem perante o prosaico e horrível desmentido, essa palavra maldita!

“Deixem-nos sonhar”, parece implorar quem compra e lê, com avidez, estas novelas da bola! Por esta época todos os adeptos de futebol, seja qual for a sua cor, ficam com as palmas das mãos brancas de tanto esfregar enquanto repetem com fervor a velha frase “este ano é que vai ser!” Mas há sempre alguém preparado para os fazer cair na triste realidade dos clubes em crise, das SAD’s falidas, enfim, do país que poupa para a Ota e para os estudos preliminares!

Até medos de Agosto devia ser sempre S. João! Mas um S. João de verdade; sem crise, sem deserto na margem sul, sem jornais sérios, sem políticos aldrabões, sem censura de opinião, sem notícias de pedofilia, de acidentes de viação, sem secas nem inundações, enfim, só com o S. João e as notícias dos jornais desportivos! E que alegria seria este país!


cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 19 de Janeiro de 2007