O GUARDIÃO DO TEMPLO
 

“Havia de haver uma lei que…” é uma frase que se ouve por aí, em cada canto e esquina. E o certo é que se fazem leis para todos os gostos e feitios. Se calhar é por isso que há tanta criminalidade.

Mas no futebol verifica-se precisamente o extremo oposto: as leis são, salvo raras excepções, aquelas que o International Board criou em 1882. Esta instituição, autêntico guardião do templo que é o futebol, resiste a tudo e a todos na manutenção de uma firme postura conservadora. Dominada “a meias” pela FIFA e pelas federações britânicas de futebol (é composta por quatro delegados britânicos e quatro representantes da FIFA), procura por todos os meios manter a “tradição”, mesmo à custa da manutenção de regras antiquadas que propiciam situações dúbias e mesmo perigosas. Nem outra coisa seria de esperar de um organismo que só decide com três quartos de votos a favor (seis em oito).

Numa modalidade universal, com tanta implantação um pouco por todo o mundo, não faz sentido que as regras do jogo continuem dominadas pelas “autoridades” britânicas pela simples razão de ter sido aí que o futebol foi inventado.

Noutras modalidades têm-se verificado com grande sucesso alterações aos regulamentos que muito beneficiaram esses desportos: a mudança do sistema de contagem de pontos no voleibol trouxe outra beleza e emoção a este jogo, o recurso ao vídeo pela arbitragem de rugby contribuiu para o aumento da verdade desportiva e os lançamentos de três pontos no basquetebol são alguns dos exemplos mais conhecidos. Mas no futebol não.

Como diz o outro, continua tudo cada vez mais na mesma: a regra do “fora de jogo” continua a gerar polémicas, o desempate por grandes penalidades continua a ser a mesma “roleta russa” geradora de injustiças, a contagem do tempo de jogo é ridícula, os meios tecnológicos continuam ausentes da arbitragem, enfim, os árbitros continuam a ter demasiado poder e muita margem de manobra, o que facilita a suspeição.

No recente campeonato da Europa de sub-21 tivemos exemplos flagrantes de como é preciso mudar muita coisa no jogo da bola. Assistimos a trabalhos vergonhosos de alguns árbitros, dos quais até a arbitragem portuguesa se envergonharia.

Este medo da mudança é altamente nefasto e coloca o futebol em permanente risco de desacreditação: os erros de arbitragem são, neste momento, um dos grandes males do desporto-rei. Há quem diga que “errar é humano”. Mas a “humanidade” do erro tem limites. Há quem diga, também, que os meios tecnológicos iriam retirar o encanto e a emoção que o factor humano traz ao futebol. Mas, por essa lógica, continuávamos a viver na Idade da Pedra, porque a invenção da roda também veio contribuir para a perda de encanto dos passeios pedestres.

Por mim, na minha modesta opinião, “havia de haver uma lei” que acabasse com estas leis que colocam tanto poder discricionário nas mãos dos árbitros e dos donos da bola. Ou isso convirá a alguém? Temo bem que sim.

 

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 28 de Junho de 2007