25 Anos: Já?
 

Sem grandes exageros, posso afirmar que o dia em que o meu avô me inscreveu como sócio do Braga é um dos marcos mais remotos das minhas memórias de infância.

Não porque tal acto se tenha revestido de qualquer cerimonial particular ou porque lhe tenha sido associado um daqueles pormenores que clamam por destaque no registo das lembranças.

Sei, apenas, que de então para cá estiveste sempre comigo, caminhando ao meu lado a cada dia dos 25 anos que se seguiram.
Lembro-me que as férias de Verão tinham como ponto obrigatório o regresso a Braga para o primeiro jogo de cada nova época.

Na semana que antecedeu o jogo com o Tottenham, passamos vários dias a cortar papéis que voaram quase tão depressa quanto os sonhos de sucesso dessa aventura uefeira.

No liceu, enquanto ainda não chegara essa mania dos lugares marcados, preferíamos abdicar da sombra da Central para mergulhar nas paixões exacerbadas do “Tribunal”.

Depois, corri o país de lés-a-lés a segurar a tua bandeira: em Barcelos ou na Póvoa, quase sempre, no Porto, em Coimbra, em Aveiro, em Leiria, em Lisboa, em Faro, em Lamego até, certa vez em que te privaram do velhinho 1º de Maio por mau comportamento.

Quase de certeza, tudo por causa de mais um jogo com o Porto, daqueles em que as regras do desporto-rei ganhavam sempre um tom mais azul, perante a tua impotência e o nosso desespero, a cada golo mal validado, ao penalty providencial, às faltas e aos cartões distribuídos sem preceito...

Hoje, então, és tantas vezes o pretexto ideal para reunir os varões da casa num mesmo programa, por entre agendas cada vez mais difíceis de conciliar…

Tu que sempre te afirmaste como clube eclético, fizeste-nos vibrar com as braçadas determinadas das tuas sereias e as passadas gloriosas das meninas da Sameiro.

No relvado, brilharam muitas estrelas que me escuso de nomear para não cometer qualquer injustiça.

Recordo as carreiras eufóricas sob a batuta do Cajuda e do primeiro Castro Santos: dois terços do Estádio 1º de Maio a vibrarem com o vermelho da casa na vitória sobre o Benfica, a romaria ao Jamor, a chegada apoteótica de Guimarães no regresso à UEFA, a cidade itinerante que te acompanhou país fora quando o terceiro lugar esteve ali à mão de semear… e um mesmo sabor amargo no regresso de Alverca, da Vila das Aves ou de Aveiro.

Se nos momentos de glória pareces ficar sempre aquém do que o destino te quer oferecer, com súbitos tiques de sobranceria sobre os Leixões do caminho ou ataques de inferioridade perante os pretensos grandes, a verdade é que as verdadeiras agruras destes 25 anos se viveram bem lá para baixo na tabela classificativa.

Quantas as vezes que nos fizeste prometer que não voltaríamos a gastar a tarde de Domingo a dizer mal da vida e de ti? Mas voltávamos…

Quantas as bênçãos que desceram da Colina Sagrada e evitaram males maiores? Tantas…

Quanta a vergonha calada pelos passes cúmplices em cada meio-campo que atiraram com a Académica para a Segunda Divisão? E tão rivais que nós somos…

Na verdade, porém, a cada Julho renascia a esperança, as tristezas esvaíam-se com as notícias de cada contratação, com as promessas de uma carreira de sucesso e de melhores espectáculos.

Ainda assim, aproveito para te confessar que, de há uns anos para cá, uma outra cor invadiu as minhas entranhas e contigo partilha as angústias, as alegrias e desilusões de cada fim de semana. Talvez por prometer as vitórias que tu não conseguias alcançar. Talvez por me cativar a fidelidade em tempos de êxitos adiados. Talvez por lá ter visto despontar muitos dos heróis do contentamento nacional.

Mas, acredita, tu serás sempre o tal. Porque foste o primeiro. E o maior.

Também por isso, dispenso os templos dourados que te prometem aqueles que te apertam as amarras e te tolhem os passos…

Para mim, basta o vermelho suado da tua camisola, uma bola e um pedaço de quintal.

Conta comigo, pois, por mais 25 anos!

 

Ricardo Rio,

Sócio nº 2.226

Braga, 02-01-2004