O BRAGUISMO - A NOSSA MÍSTICA
 

No próximo sábado disputa-se mais um Braga-Benfica. Há 20 anos era esta a ocasião da grande “romaria”. Numa época em que o Primeiro de Maio registava uma média de 3 ou 4 mil pessoas, a única enchente que todos os anos se registava era com o Benfica. Nesses jogos os adeptos bracarenses eram uma clara minoria.

Mas hoje em dia o Braguismo faz viver o fenómeno de uma forma cada vez mais diferente. De facto, nos últimos anos as coisas começaram a mudar; primeiro com João Gomes Oliveira e M. Cajuda depois com A. Salvador e Jesualdo Ferreira, o sucesso desportivo foi-nos habituando aos lugares da frente e ao acesso às competições europeias. O sucesso desportivo fez nascer novas perspectivas, novas esperanças e novas formas de apoiar o clube. Podemos hoje afirmar com segurança que foi com Jesualdo Ferreira ao leme que surgiu um novo Braga, um clube que se vai afirmando como “europeu”. No seu primeiro ano em Braga, em vésperas de um jogo com o Benfica, Jesualdo afirmou: “em Braga, o Benfica joga sempre em casa”. Foi uma frase infeliz que, no entanto, reflectia uma determinada tradição que ele julgava ainda estar viva em Braga. Essa frase causou uma grande onda de indignação em Braga porque veio recordar uma realidade que começava já a ficar para trás. Da Internet saiu o primeiro grande grito de revolta, através de um site (www.superbraga.com) e do respectivo fórum de opinião. Aí, um grupo cada vez mais alargado de adeptos fazia nascer um novo conceito: o Braguismo. Mas, afinal, o que é o Braguismo? É uma coisa muito simples: é o apoio incondicional e exclusivo ao Sporting Clube de Braga. O Braguista não tem um segundo clube da sua preferência! Com ou sem Internet, o certo é que me parece evidente o crescimento do braguismo. Cada vez mais, o bracarense-benfiquista, tão propalado pela Comunicação Social de Lisboa, não é mais do que uma figura em vias de extinção. Já lá vai o tempo em que os golos do Benfica eram festejados na superior. Nas últimas duas épocas o número de braguistas no estádio tem crescido a olhos vistos nestes jogos com o Benfica. O entusiasmo com este Braga europeu da era Salvador é cada vez maior e nem o inicio menos bom desta época o fará esmorecer.

Quem, como eu, lida diariamente com a população mais jovem sabe que o conceito de bi-clubismo está moribundo. Cada vez mais o Braga é visto como um concorrente directo dos auto-intitulados “grandes” e já não como um modesto e fiel servidor. Este “culto” daquilo que é nosso, este apego à nossa cidade e ao nosso clube pode ser encarado como aquilo a que alguns chamam “mística”. E tal como acontece com todos os grandes fenómenos mentais, também a mística braguista está a nascer “de baixo para cima”; a partir das bases, que são os adeptos. Estou certo que num futuro próximo o braguismo invadirá todos os sectores da vida do S. C. de Braga. Um dia virá em que até os dirigentes serão braguistas e não passará pela cabeça de ninguém que os interesses dos clubes ditos “grandes” se sobreponham à mística braguista. Acredito que um dia virá em que o S. C. de Braga tenha um núcleo de jogadores perfeitamente identificados com essa mística e um conjunto de responsáveis que não precisarão de ceder perante poderes instalados nem interesses de qualquer espécie. Tem de ser este o caminho a seguir. Caso contrário estaremos a perpetuar o poder de quem nos quer manipular para nos manter pequenos e subservientes. Nunca na História da humanidade os grandes sobreviveram sem os pequenos. Portanto, é um erro pensar que o apoio dos mais poderosos possa ser para nós um trunfo, porque o que eles esperam de nós não é, certamente, que lhes façamos concorrência.

cardoso@superbraga.com

Manuel Cardoso
Braga, 16 de Novembro de 2006