Entrevista exclusiva com António Caldas, treinador da Equpa B do Sp. de Braga.



Superbraga (SB)- Antes de mais, os nosso parabéns, em nome do Superbraga.com pelo trabalho realizado na Equipa B. Os resultados estão à vista e falam por si. Temos a percepção que é um treinador com perfil ideal para a equipa B. Todos os anos há muita rotatividade, entradas e saídas de jogadores, o que dificulta muito a tarefa do treinador. Pensamos, por isso, que é necessária muita dedicação, empenho e competência.
Enquanto treinador, como se define?

António Caldas (AC)- Como é que eu me defino como treinador... Primeiro, tenho que me pôr no lugar dos jogadores. Lembrar aquilo que eu passei como jogador para perceber todos aqueles momentos de ansiedade que antecedem um jogo e saber aquilo que nós pretendemos. Eu quando tinha a idade deles via-me um atleta de alta competição; aquilo a que eu podia aspirar se trabalhar, se me dedicar. Então, eu muitas vezes digo-lhes a eles, conto-lhes passagens minhas, coisas para as quais eu não tive oportunidade, alguém mais velho que perdesse algum bocadinho a falar no que podia ser o dia de amanhã.

Quando nós enfrentamos algum jogo, caso do Leixões, com seis mil pessoas a assistir, ou no Campo da Ponte, quando tem bastante gente; aquilo é uma pequena amostra do que será o futuro deles. E esse futuro vale a pena, porque é com estádios cheios, com as massas a vibrar, com bandeiras, com aquele ambiente que nós vimos agora, aquela festa em Sevilha, é com tudo isto que se cria no interior do atleta uma satisfação enorme. E é essa sensação que eu lhes procuro transmitir. O que podem vir a ganhar também é um trabalho que está ao alcance deles e é com essa dedicação, com essa postura e com esse sonho de que tantas vezes se fala. O meu sonho é conseguir ver que eles estão no bom caminho. Eu tive durante esta época um atleta jovem, que tinha acabado de chegar das camadas jovens, dos juniores para a equipa B e em determinada altura, passados dois meses, bateu-me à porta do balneário e veio-me perguntar o que é que eu achava, como é que ele estava, o que é que necessitava de corrigir e eu disse-lhe: “estou a gostar imenso do que estás a fazer. Agora, dá tempo a ti próprio. Podes ir para casa sossegado, podes dormir sossegado porque tu estás no bom caminho”. E hoje é uma promessa. Posso-vos garantir que é uma promessa. Não vos vou dizer o nome mas eu acredito plenamente que será mais um grande atleta do Sporting de Braga.

 

SB- Pode-nos definir, em traços largos, qual o seu percurso no futebol?

AC- Eu comecei aos doze anos aqui no Sporting de Braga. Reuni-me com outros jovens junto ao estádio, onde se recrutavam os novos jogadores. Vários jovens esperavam ali serem chamados. Se calhar chamaram-me a mim por ser o mais alto; eu tinha a sorte de ser um atleta alto e então eu estava lá ao fundo e vi uns braços a chamar por mim. Até perguntei: “Eu? Eu?” Tive então oportunidade de vestir o equipamento do Braga, de treinar no estádio. Eu lembro-me perfeitamente que o primeiro treino que fiz foi no Estádio Primeiro de Maio. Eu era avançado. Perguntaram-me qual era a posição em que eu gostava mais de jogar. Lembro-me perfeitamente que nesse primeiro treino fiz um golo. E nessa altura chamaram-me para ir tomar banho e ir lá acima ao falecido Hilário, que era o responsável pela secretaria, quando a secretaria era no Campo da Vinha, para ir lá inscrever-me. Nem tomei banho. Foi a correr lá acima à sede e foi assim que me iniciei no Sporting de Braga. Fui vice campeão nacional de Juvenis e fui campeão nacional de Juniores. No ano seguinte subi à equipa principal do Braga. Era uma época muito complicada porque tínhamos guarda redes que eram cá da casa, que era o caso do João, a que chamavam o João “Pilas” que treinava e, praticamente, ao domingo ia para a bancada. E então, se o João ia para a bancada, o que é que eu estava cá a fazer também? Então eu falei na altura com a Direcção e pedi para me libertarem, para poder “fazer-me à vida” e tentar jogar. Saí daqui, fui para o Grupo Desportivo de Prado.

 

SB- Numa altura em que o Prado estava nos campeonatos nacionais...

AC- Nesse ano o Prado estava na segunda divisão, actual segunda liga. Estive lá um ano e depois passei para o Atlético de Valdevez. Subi com o Valdevez e daí foi para o Riopele, onde estive cinco anos, até à extinção do clube. Fui para o Vizela, para a primeira divisão. Depois fui para a Lixa e da Lixa para o Paços de Ferreira e subi com o Paços de Ferreira, quando foi instituída a Divisão de Honra, onde ganhei o primeiro título dessa Divisão de Honra. Com esse título subimos à Primeira Divisão, onde permaneci quatro anos. Saí depois do Paços e fui para o Leixões, para a divisão de Honra e daí para o União da Madeira. Estive dois anos na Madeira e regressei para o Leça, para ser novamente campeão da Divisão de Honra. Aí regressei novamente ao Leixões, onde terminei a minha carreira como atleta e onde iniciei a minha carreira como treinador. Fui treinador do Leixões durante dois anos. Saí do Leixões (para perceberem melhor) com uma história idêntica à do Carvalhal, onde eu não podia admitir que alguém interferisse no meu trabalho, havendo também ordenados em atraso. Regressei a Braga, estive um ano na formação. Depois foi formada a equipa B e estou cá desde essa altura.

 

SB- Como treinador, que perspectivas tem para o seu futuro?

AC- Como um jogador. Sempre mais, melhor... o futuro tento conquistá-lo hoje. Tenho que fazer coisas boas hoje porque se fizer coisas boas hoje, amanhã eu tenho o caminho preparado para ter mais um dia bom. Então, o futuro é o dia a dia, tentar cada vez mais agarrar-me ao estudo do futebol, que é importante, tentar ter uma maior dedicação, um maior profissionalismo e deixar que o tempo o diga, sem atropelar ninguém, com calma mas, naturalmente, eu quero sempre mais.

 

SB- Falando agora concretamente da equipa B. Qual a sua opinião sobre o impedimento que actualmente existe de promoção das equipas B à Segunda Liga?

AC- Hoje não é fácil qualquer miúdo integrar-se na equipa B do Sporting de Braga. Neste momento temos um patamar muito alto. Exigimos uma qualidade já num patamar bem alto. E por isso mesmo penso que as equipas B já deviam estar incorporadas numa Segunda Liga porque a equipa B do Sporting de Braga, neste momento pode-se bater em campo com qualquer equipa da Segunda Liga. Se nós durante o ano conseguimos meter jogadores na primeira equipa, se o objectivo das equipas B é servirem de trampolim para a Primeira Liga, e se há jogadores a fazerem jogos na Primeira Liga, como acontece no Braga, Porto, Sporting, Marítimo, então porquê essa distância tão grande de competição? Eu penso que um dia mais tarde, não muito longe, isto vai ser alterado.

 

SB- No Sporting de Braga há planificações conjuntas, ou outro tipo de acções de coordenação entre os responsáveis técnicos dos diferentes escalões e da equipa A?

AC- Desde que foi formada a equipa B, existia essa coordenação, um bocadinho “de papel”. Hoje está a haver uma articulação entre todos que nós torna a nós praticamente um modelo. Com a vinda do mister Jesualdo Ferreira isso ainda foi melhorado. Tal como já saiu na imprensa as duas equipas (A e B) vão ter vinte jogadores, o que dá origem a que as equipas A, B e de Juniores venham a estar muito perto umas das outras. Há uma maior articulação, um maior movimento de jogadores. Por isto mesmo é que eu digo que o Sporting de Braga neste momento, com a forma como está a preparar o futuro, neste momento é um modelo. A formação está a ter uns patamares cada vez mais elevados em termos de qualidade dos atletas. Evidentemente que isto vem de um trabalho a longo prazo que vai começar a dar os seus frutos. Eu penso que esta articulação é o fundamental. Penso também que daqui a dois ou três anos nós iremos ter aquilo que eu vejo lá no vosso site: um Braga grande, um Braga forte. Isso vai acontecer. Agora vamos é dar o seu tempo.

 

SB- Qual a sua opinião sobre a prospecção que se faz no Sporting de Braga?

AC- Mais um gabinete que existia no papel. Existia na realidade alguma coisa e neste momento está a acontecer. Se virmos nas equipas de juvenis e não só, mesmo aqui na equipa B, existe muita gente de fora. Nós não podemos cair naquela situação em que só o que está cá dentro é que é bom, nós temos que andar por todo o país e não só, a ver a qualidade que nós precisamos para enriquecer cada vez mais os nossos quadros.

 

SB- O futuro do Sporting de Braga passa, evidentemente, pela formação...

AC- Sem dúvida... e não é só no Braga. É o futebol no mundo. Se nós olharmos através do futebol europeu e do mundo, cada vez há mais equipas B. Há quantos anos existem equipas B em Espanha? Nós vemos jogadores do Real Madrid, hoje a jogar na primeira equipa, jogadores esses que passaram pela formação e pelas equipas B. Muitos jogadores que estão a jogar em Espanha, na primeira Liga, são jogadores que saíram, por exemplo do Real Madrid B, da Segunda Divisão B.

 

SB- Talvez dependa muito das Direcções... recordo-me do Sporting há uns anos, que inverteu essa situação, apostou na contratação de jogadores como Ramirez, Tello, etc. Agora, voltou a inverter e já aposta em jogadores como Quaresma, Ronaldo, etc...

AC- Perfeitamente. E o que é que aconteceu com o Benfica? Formou a equipa B mas não havia organização nenhuma, andava tudo à deriva. Era só para existir no papel; na prática... zero. E o que é que aconteceu? Tiveram que descer de divisão. Nós tivemos exemplos: fomos buscar alguns jogadores do Benfica, casos do Hugo Henriques e do Hélder Ramos e que grandes dificuldades eles tiveram aqui! Eles nunca imaginaram, nem lhes passava pela cabeça o trabalho que é feito aqui no Sporting de Braga. Eles próprios nos transmitem isso. Nunca imaginaram que aqui se trabalhava assim.

 

SB- Parafraseando Cajuda, aqui corre-se mais...

AC- Corre-se mais, há mais rigor. Está incutido nos atletas, e eles encaixaram, o sentimento pela camisola, o carisma que é importante e que eles devem ter pelo clube, a entrega que eles têm. Eles passam horas e horas aqui dentro. E ninguém quer sair daqui. Ninguém quer sair daqui! Aparecem aqui todos os dias! O Braga hoje podia ter dez ou vinte equipas, pelas cartas que a gente recebe; pelos telefonemas que recebemos, pelas pessoas todas que aparecem aqui, que querem aventurar-se, que querem treinar. O Braga é um clube desejado por imensos atletas que andam por aí. Não é por acaso que nós, na Segunda Divisão B, sentimos que todos os nossos adversários correm mais, lutam mais, estão motivados, porque têm gente nova que querem se mostrar. Foi assim que veio para aqui o Nuno Rocha, o Nené, vários jogadores. É nesses jogos contra nós que eles se tentam mostrar. Porque nós estamos ali a fazer o jogo mas também estamos a observar. È uma forma de observação directa em plena competição.

 

SB- O objectivo da equipa B passa sempre por formar jogadores para a equipa principal, evidentemente. O Pedro Costa e o Henrique estão de pedra e cal na equipa A. O campeonato é competitivo. Vinte equipas, com jogos à semana... que balanço é que faz da equipa B na temporada que acabou?

AC- Eu, ou a equipa B, ganhámos o campeonato. Nós ganhamos o campeonato! Porque neste momento estão lá (na equipa principal) dois jogadores da equipa B. Portanto, nós ganhámos o campeonato! Não digo que mesmo que descessemos de divisão, mas mesmo que ficássemos em quinto a partir do último, teríamos, mesmo assim, ganho o campeonato. Essa é que é a minha classificação. Se eu tivesse ficado em primeiro lugar na classificação, eu trocava isso por colocar um jogador que fosse na equipa principal. Bastava-me um para eu trocar essa posição. Aqui na equipa B do Braga, nós não nos preocupamos muito com os resultados. Nunca se fala aqui em ganhar ou perder. Ganha-se é na evolução do atleta e através do seu colectivo, isso é fundamental. Se perdermos, perdemos... O que interessa é que os jogadores dêem o seu melhor, sejam correctos. Se perdemos, é porque o adversário foi melhor. O que não podem é correr mais que nós, meter o pé mais que nós, isso é que não. Eu quero uma equipa muito competitiva, porque o caminho está já ali, mas daqui até lá há muitos obstáculos. Eles sabem que há obstáculos e que vão ter que os ultrapassar. Como não sei, mas se não os ultrapassarem, ficam pelo caminho.

 

SB- Acha que devia haver na formação, inclusivamente na equipa B, um modelo de jogo semelhante ao praticado na equipa principal?

AC- O que é que aconteceria com um modelo único para todas as equipas? Acontece que nós podemos arranjar uma forma de jogar, por exemplo, em 4*3*3, colocarmos os jogadores nessa posição só que depois o jogo vai ser alterado. Então o jogador vai ter que perceber o jogo. Vou-lhes dar um exemplo dos jogos de cartas: eu não sei jogar sueca, mas ganho a jogar sueca. Agora se você é um bom jogador de sueca, que me começa a pedir trunfos e a fazer sinais, aí fico baralhado porque não percebo nada disso. O jogador de futebol é a mesma coisa. Em determinada altura do jogo podemos entrar nesse modelo de jogo, em 4*3*3 ou num 4*4*2 e depois temos que alterar isso. Mediante o resultado e muitas das vezes as “pedras” do adversário que estão dentro do campo e algumas podem estar a ser muito influentes num determinado movimento, então, muitas vezes, temos que alterar a postura inicial. Eu introduzi dois modelos como foi combinado aqui entre os técnicos. Um modelo inicial com o senhor Castro Santos: 4 defesas, dois médios mais defensivos, um médio ofensivo e três homens na frente. Podíamos alterar muitas das vezes para um médio defensivo e dois médios mais ofensivos. Esse foi o modelo que eu apresentei logo, desde o início, ao plantel.

 

SB- Mas durante o ano, perante a realidade, foi diferente.

AC- Como não me preocupa nada o resultado, então, praticamente, passei o ano, tanto em casa como fora, com quatro defesas, um médio, dois médios ofensivos e três homens na frente. Evidentemente que durante o ano tive muitas vezes que jogar (por conhecimento mútuo em relação ao adversário, que sabia que não nos podia deixar jogar à bola, porque se nos deixassem jogar, se não nos fizessem marcações directas, praticamente o adversário não conseguia chegar aos noventa minutos, porque causávamos um desgaste enorme ao adversário, em plena posse de bola. Então o nosso segredo era a segurança de bola, o desgastar o adversário em termos físicos e psicológicos. Porque nós somos jogadores de futebol e gostamos de jogar à bola. Se não nos deixarem jogar à bola, isso vai causar um desgaste psicológico, um clima desagradável entre eles e isso vai abatê-los. Nesta segunda volta, tínhamos jogos em que fazíamos marcações directas, eram jogos muito viris, bastante fortes, em que nós tínhamos bastantes dificuldades porque estes jogadores, na realidade, eram os tais artistas, gostavam era de jogar, de sentir a bola circular por todo o campo. Não é por acaso que temos o terceiro melhor marcador da segunda divisão a nível nacional, um jovem de vinte e dois anos. Não é por acaso que temos um Miguel Soares, que era o tal trinco, que estava lá atrás, rouba a bola, entrega aos médios e fica, o caso do Miguel Soares, que marcava um ou dois golos, este ano marcou nove golos. Temos o caso do Tiago, que quando jogava aqui, quantos golos marcava? Estava lá atrás, roubava a bola e entregava aos médios. O Tiago foi para a Luz, onde curiosamente encontrou Jesualdo Ferreira e o Tiago começou a marcar golos. É que toda a equipa tem que defender quando não tem a bola e toda a equipa tem que ser ofensiva quando tem a bola. Quando perdemos a bola, o primeiro defesa é o avançado. Quando temos a bola, temos que avançar; com ordem, com disciplina, com regras e o Tiago, que tem qualidade técnica, libertou-se, acreditou, e hoje é o quarto melhor marcador do campeonato. É esse tal modelo de jogo que difere...

 

SB- Num jogo pode haver três ou quatro modelos de jogo diferentes...

AC- Perfeitamente! Quantas vezes, em jogos do campeonato, só actuamos com três defesas. Bastava sofrermos um golo, estávamos a perder, então há que avançar. Com regras: quando tínhamos a bola, ficávamos com três defesas. Quando perdíamos a bola, baixava o tal médio defensivo, que fazia de quarto homem. Aí libertávamos muito os laterais, para criarmos a tal superioridade, os desequilíbrios.

 

SB- Acha que a equipa B tem as condições necessárias, mínimas para trabalhar? O que é que faz mais falta? Acha que com outras condições de trabalho podia fazer melhor?

AC- O país não tem condições mínimas. É o país que não tem condições mínimas! É por isso que esta onda tão forte, (“porque é que hão-de haver estádios?”) não vê que os estádios que temos estão destruídos, o estádio 1º de Maio está em reparações. Nós precisamos, na realidade, de novos estádios, com novas condições. Evidentemente que há muitas equipas no país para pouquíssimos estádios. Nascem jogadores com qualidades mas não temos condições. Nós é que somos habilidosos, os treinadores, os clubes, nós inventamos, mil e uma coisas, não só nos campos mas nas aparelhagens, bolas, etc. Nós inventamos: cortamos um eucaliptozinho e inventamos uma barreira, por exemplo. Não acontece em Braga. Braga tem as condições mínimas. Está a criar um estádio, vai haver mais um campo relvado, mais uns campos de apoio e mais este que nós temos aqui (1º de Maio). Por tudo isto é que a cidade se aventurou a fazer mais um estádio. Porque na realidade tem jogadores e tem um clube como o Sporting de Braga que tem formação e precisa por isso de mais relvados. Houve uma altura em que senti mais dificuldades neste aspecto, porque queria ganhar o tal campeonato, mas essa opinião não deveria ter saído. Eu devia ter falado mais cá dentro.

 

SB- Mas não foi ouvido...

AC- Isso é a mesma coisa que um filho estar a pedir pão ao pai mas o pai não pode dar porque tem dificuldades, não tem emprego, o pai quer dar mas como é que vai dar se não tem, se não tem dinheiro para comprar mais um bocado de pão? Então vai ter que dividir o pouquinho que tem pelos filhos todos. Os filhos começam a chorar, mas o que é que o pai vai fazer? Aqui, o “pai” sabe que temos qualidade, mas precisamos de mais espaço, andamos a chorar para ver se conseguimos mais um bocadinho de pão...

 

SB- Neste momento, a nível directivo, o Braga tem mais olhos para o tal “filho”...

AC- Neste momento sim. Neste momento tem. Eu não estou a falar de uma Administração ou de outra. Estou apenas a dizer o que temos no momento. E temos apoio. Não é por acaso que esta administração, já há dois meses que anda a preparar o futuro. Há dois meses que existe um projecto para a equipa B enquanto que noutros tempos e noutros clubes (na maioria) as coisas andavam mais em cima da hora. Aqui não. Aqui avança-se com bastante tempo, já há um projecto praticamente carimbado do que será o dia de amanhã. Isso é que me dá esta vontade e esta folia com que me estou a exprimir, este sentimento. Porque eu sou profissional mas também estou a trabalhar no meu clube. Teria a mesma postura noutro qualquer mas como estou a falar no meu clube, se calhar sinto mais as coisas.

 

SB- Na próxima época a equipa A e B, terão um plantel de 20 jogadores cada. Poderá haver chamadas de jogadores dos BB para os AA...

AC- Serão 20+2 (os guarda-redes). Poderá haver chamadas dos BB para os AA mas também dos juniores para os BB e dos juvenis para os juniores.

 

SB- Acha que isso poderá condicionar a equipa B?

AC- Eu não confundo a qualidade com a maturidade. Se tem qualidade, entra. Temos um caso aí, mais recente: é o caso do Cícero, com 16 anos, ou 17 anos. Para chegar aos vinte faltam três anos. Porque é que eu não vou aproveitar esses três anos, para quando chegar aos vinte ele poder ser já um bom atleta e dar o salto? Porque é que nós pensamos que os nossos atletas só chegam “lá acima” aos vinte e cinco, vinte e seis anos? Então porque é que não hei-de criar o atleta de forma a que ele consiga estar mais tempo no auge, e chegar lá logo aos vinte? E se chegar aos dezanove, melhor. E aos dezoito ainda melhor. Quanto mais rápido melhor. Mas sem pressas, com métodos. Isto é como na escola, há uns que assimilam melhor que outros. Mas mesmo nesses jovens, uma das coisas que eu ponho sempre em primeiro lugar são os estudos.

 

SB- Procura acompanhar os estudos dos jogadores...

Primeiro está a escola. Se fores um bom aluno, se calhar vais ouvir melhor e compreender melhor o que é o futebol. Quando eles vêm para a equipa B, uma das primeiras coisas que vou tentar saber são as notas. E depois quero ver como é que as notas vão; passado uns meses, que notas tem tirado. Ele não pode baixar. Porque me interessa acima de tudo que eles sejam jogadores inteligentes, para poderem assimilar, para perceberem melhor o que é este mundo do futebol. Isto é mesmo uma arte, falando mais romanticamente. Isto é uma arte em que nada sairá mais como no dia de hoje. Cada finta e cada movimento são únicos. Temos é que explorá-los, deixar que se libertem, que joguem. Mas com regras, com metodologias que aprenderam na semana de trabalho, não posso dizer a um atleta que corra à toa, porque irá correr e não produz nada. Tem que correr para criar situações. No futebol, para conseguirmos superar o adversário temos que o surpreender, temso que os enganar, temos que os levar a “cair no engodo”. Para isso temos que ter regras.

 

SB- Qualquer arte tem regras, a criatividade não nasce do nada...

AC- Perfeitamente!

 

SB- O treinador da equipa principal, Jesualdo Ferreira, é um profissional que sempre treinou com jovens. Acha que o JF estará mais sensibilizado para trabalhar com os jovens do Sporting de Braga?

AC-  A resposta é esta: chegou, viu, lançou. Sem problema nenhum!

 

SB- E com um adversário de peso...

AC- Ele também não confunde a qualidade com a maturidade. Esta é que é a realidade: para quê andarmos a olhar para as idades? Que interessa se um jogador tem 25 anos se não tem qualidade?

 

SB- Ele tinha o Zé Nuno no banco, que tem qualidade, e optou pelo Pedro Costa para jogar contra o Simão, que é um dos melhores extremos da Superliga... 

AC- E não é por acaso que na segunda parte o Simão virou para o outro lado porque com o Pedro Costa não fez nada! Chegou, viu e lançou.

 

SB- Prosseguindo nessa linha, lançou o Pedro Costa, o Henrique, e agora? Quais serão os jogadores da equipa B que estarão na calha?

AC- Todos eles estão na mesma calha. Eu não tinha problemas nenhuns em dizer-vos nomes. O problema é como é que eles iriam interpretar isso. Nestas idades, nestas fases, devemos ter um cuidado enorme. Eles conseguem sobreviver através do êxito e de como eles conseguem viver com o êxito. Eles têm que sentir que o êxito está ali. È difícil lá chegar, mas ele está lá. É preciso manter a mesma humildade, a mesma postura, senão o tombo é enorme.

 

SB- Quando o jogador chega lá, quando um Pedro Costa entra assim na equipa A, o que é que o treinador da equipa B sente?

AC- É uma alegria muito grande! Quando vi o Pedro entrar, como tinha acontecido com o Henrique, com o Paulo Jorge, com o Nené, com o Nuno Rocha, foi uma sensação muito forte... Mas, vou-lhe dizer, com o Pedro, se calhar pela envolvência do próprio jogo, a moldura humana que lá estava, eu arrepiei-me e veio-me uma lágrima aos olhos. Uma lágrima de alegria. Por ele. E desejando que fizesse um bom jogo. Que tudo lhe corresse bem. Dá-me a impressão que o senhor que estava à minha frente devia ter levado alguns toquezinhos com o meu pé. E ainda aconteceu há dias com o Henrique. Eu ainda não o tinha visto jogar na Superliga, vi na televisão o jogo com o Setúbal e, no lance em que ele conseguiu a grande penalidade, eu estava no meu Restaurante e, com o movimento e a gritar “penalti”, parti um copo. Esse é o tal campeonato ganho. Isto não quer dizer que tenhamos que promover jogadores todos os anos, mas Deus queira que sim. Estou convencido que sim. Mas não podemos subir por subir. Nem toda a gente consegue chegar à alta competição.

 

SB- Sente também que uma parcela do êxito também é sua. Não é assim?

AC- Não sei... eles é que se ajudaram a eles próprios.

 

SB- Mas você contribuiu, não seja tão modesto...

AC- Talvez... aquilo que mais me preocupa a mim é que eles consigam encaixar no futebol, no jogo. Eu quero que eles vivam o futebol. Se nós formos ao cinema, para compreendermos o enredo temos que nos incutir no filme, entrar dentro da tela. Eu quero que eles consigam viver esses momentos. Há um exemplo que eu costumo dar: nas grandes competições de atletismo, com estádios completamente cheios, os atletas dos concursos, como o salto á vara, ou salto em altura, o atleta está a concentrar-se antes da prova, com outras provas a decorrer, com o barulho do público, e ele está a prever todos os movimentos que vai fazer para o salto, ele está a “ver o filme” de todos os seus movimentos, os gestos que faz, todos os passos que vai dar. Este é o conteúdo de muitas das minhas conversas com eles. Porque é que o atleta, cada um na sua posição, antes do jogo, ele não pode prever também os movimentos que vai fazer? Ele deve ver coisas bonitas. Porque o tal atleta também está a “ver” o êxito. Ele saltou a fasquia! Também o futebolista pode fazer isso; imaginar, “ver” o seu sucesso, o seu golo.

Muitas vezes, o balneário, antes do jogo, parece um funeral, há um silêncio pesado. E eu não quero nada disso. Eu quero que toda a gente brinque lá dentro. Concentrados no jogo, mas não quero aquele silêncio porque nós vamos para uma coisa bonita, vamos fazer uma coisa que nós gostamos; vamos jogar à bola! Nós somos os artistas; vamos tentar que as pessoas que nos vão ver vibrem. E para isso também precisamos de vibrar com os nossos movimentos.

 

SB- O António Caldas parece que já conquistou o coração dos bracarenses...

AC- Fala-se muito pouco. Uma das coisas que eu gostaria era que se falasse mais. Houve uma altura que nós tínhamos jogos à quarta feira. Com muito pouca gente. Evidentemente que muitas pessoas trabalham. Mas mesmo muitos jogos ao Domingo, jogos importantíssimos em que até pedi aos jogadores para serem eles a falar à Imprensa. Porque o futebol é bonito é com pessoas, com bandeiras, com aplausos. Não é também o futebol que eu vi no jogo dos Juvenis contra o Sporting. Havia muita gente mas não ouvi uma única vez gritarem pelo Braga, puxarem por aqueles miúdos, e vi os miúdos, principalmente naquela fase mais difícil da segunda parte, a pedirem apoio ao público. Porque eles precisavam de apoio. Eles estavam exaustos e precisavam que alguma coisa os motivasse, os “puxasse”. O gritar pelo Braga ia-lhe dar mais cinco ou dez minutos de força. O jogador também tem que estar preparado para isso. Mas o futebol é bonito é como se viu em Sevilha, é com alegria. O futebol é alegria. Cada um está a “puxar” pela sua equipa e isso é que cria o entusiasmo. Se o adversário tem mais gente, então vamos tentar apoiar com mais força. Porque o jogador de futebol, ao entrar em campo e ver toda aquela moldura humana, sente-se um artista.

Por isto é que eu queria ver mais no Superbraga.com falarem mais da equipa B. No jornal do clube, em todo o ano, só hoje é que veio uma entrevista minha. Durante todo o ano, eu preferi meter um jogador da equipa B a falar para se apresentar aos sócios, para mostrar a sua carreira, para que os sócios o conheçam. O treinador Caldas já as pessoas o conhecem. Por isso preferi sempre indicar um jogador para falar à imprensa ou para sair no jornal do clube. Os sócios não os conhecem, até porque no Campo da Ponte não temos instalação sonora onde possam ser anunciados os nomes dos jogadores.

 

SB- Que mensagem em particular, gostaria de deixar para os frequentadores do SUPERBRAGA.COM?

AC- Neste sentido, o superbraga.com podia muitas vezes falar dos jogadores da equipa B como fazem em relação aos da A. Por exemplo, agora vão entregar o prémio do melhor jogador do ano ao Barroso. Isso é um estímulo muito grande para um jogador e os jovens precisam de motivação; uma pequena entrevista que eles dão ao jornal é uma coisa muito grande, muito importante para eles, porque é a primeira entrevista. Assim, eles começam a sentir-se jogadores de futebol. Interiormente, ele, o jovem e não só o atleta, vai-se sentir feliz, vai-se sentir realizado. Passa na rua e é identificado; vai ao site e vê o nome dele, porque hoje em dia toda a gente anda pela net, mesmo que seja uma crítica, porque eles também têm que se habituar às críticas. Eles têm que entender as críticas construtivas; o sócio não lhe vai querer mal, pelo contrário. Uma iniciativa como o jogador do mês da equipa B, ou jogador do ano, é mais um espaçozinho, é mais um jogador que vocês vão ajudar a formar. Vocês não fazem ideia de como podiam ajudar o futuro do Braga.

O superbraga faz falta. E muitos “superbragas” são precisos. É uma forma de nós falarmos do clube, é uma forma fácil de cada um exprimir a sua opinião, bem ou mal, além de cada um estar em sua casa, e embora com muitos nomes fictícios , mesmo assim conseguem fazer uns almoços, têm opiniões muito diferentes uns dos outros mas isso muitas vezes ajuda e é uma forma simpática de as coisas crescerem.

Por isso, os meus parabéns ao Superbraga.com

 

Terminou assim uma entrevista descontraída, bem disposta e ao mesmo tempo profunda e reflexiva nos temas que foram abordados.

Ao Mister António Caldas, ficam os nossos agradecimentos, pela simpatia, abertura e frontalidade com que nos respondeu.

Entrevista realizada em 25 de Maio do 2003, no estádio 1º de Maio, exclusivamente para o superbraga.com

 

José Araújo

Manuel Cardoso