Entrevista exclusiva com treinador Fernando Castro Santos


"QUERO FICAR EM BRAGA MUITOS ANOS"

A conversa já estava marcada há muito tempo mas só a semana passada teve lugar logo após o treino matinal de sábado. Afável e de aparência tranquila, mostrou-se admirado quando lhe mostramos o rol de perguntas que tínhamos para lhe fazer. Começamos a recordar o passado. A sua primeira passagem por Braga e a saída repentina.
Reconhece que o levou para Sevilha foi a inexistência de infra-estruturas e instalações: "estávamos a treinar muito mal e eu não estava contente com aquela situação pois gosto de treinar de outra maneira". Para trás ficaram alguns bons e maus momentos em Espanha e surgiu o regresso a Braga pois " sempre que cá vinha era muito bem recebido e todos pareciam ter gostado de mim".
Com um pé na Galiza (Pontevedra) onde tem negócios e a família - "moro sozinho em Braga. A vida de treinador não permite andar sempre com a família atrás" ,Castro Santos aceitou o novo desafio de Fernando Oliveira apesar de " querer disputar outros objectivos que não os actuais".

Começa por nos falar das diferenças encontradas " hoje temos um relvado mais mas também temos uma nova equipa profissional (a equipa B).. Não , não houve muitas diferenças entre a minha primeira passagem e agora...".

Superbraga (SB) - O que mudou então?
Fernando Castro Santos (FCS) - Bom, dantes era um clube agora é uma SAD e tudo isto tem vantagens e desvantagens. Naquela altura respirava-se mais saúde económica agora temos austeridade. É possível que existisse maior ambição agora aceita-se a realidade económica que se está a atravessar. Acho que naquela altura o Braga era maior do que agora

SB - Quando teremos condições para ser um grande em Portugal?
FCS - A terceira cidade do país tem que ter capacidade de disputar coisas importantes no futebol português.. Quando , não sei... levará o tempo que levar a cidade a despertar para o clube e para este projecto desportivo. Pode estar toda a vida...se nada mudar.

SB - Mas está disposto na continuar com estes problemas?
FCS - Claro que sim. Quem me contratou foi um clube e não uma pessoa. Nós vamos seguir com este projecto de transição para dar tranquilidade e equilíbrio para depois partirmos para um objectivo mais ambicioso.

SB - Mas sente-se defraudado face ao que esperava e agora face à realidade?
FCS - Não me sinto traído. Quando me contactaram disseram-me que haveria dificuldades mas depois verifiquei que essas dificuldades eram maiores. Mas cá continuo...

SB - Poderá residir nos jovens o futuro deste SCBraga?
FCS - Os jovens têm alguns problemas que residem na falta de experiência e de conhecimentos sobre a primeira divisão. Mas também têm virtudes . Têm tempo para crescer e progredir. O problema nesta nossa participação é que abastecemos a equipa de jovens e ao mesmo tempo com jogadores inexperientes na primeira divisão.

SB - Curiosamente com a saída dos experientes Glauber, Odair e Zé Roberto o Braga pareceu renascer...coincidência ou talvez não...

FCS - Quer-me parecer que é coincidência... a saída de alguns jogadores deixou-nos com problemas mas também nos trouxe ar fresco...

SB - Chegou apensar em pedir demissão?
FCS - Não. Sou responsável e sei que esta temporada as coisas são difíceis. È claro que as primeiras vitórias dispararam as expectativas e depois as pessoas sentiram-se defraudadas por não estarmos nos primeiros lugares. A realidade do Braga é outra este ano. Vamos tentar fazer campeonato tranquilo

"A EQUIPA "B" É O FUTURO DO BRAGA"

SB-  A equipa B tem salvado o clube...
FCS - Eu sou um adepto da continuidade da equipa B mas sei que para termos duas equipas profissionais tem que mudar muitas coisas. Agora mesmo não sei se tem condições... primeiro temos que ter condições económicas e estruturas. Eu gostava que tivessem pois aqui reside o futuro do Sporting de Braga

SB - Foi contratado para educar e fazer crescer futebolisticamente os mais jovens. È um técnico talhado para a formação e dela extrair resultados ou prefere treinar os consagrados?
FCS - Eu considero-me um técnico profissional de futebol. Tenho que adaptar-me às circunstâncias e ao longo da minha vida já passei por várias situações. Todos os técnicos gostam de trabalhar com miúdos pois têm os olhos mais abertos. A ilusão nos olhos dos miúdos não existe nos mais experientes. Tudo tem vantagens e inconvenientes. A equipa equilibrada tem uma mistura das duas coisas

SB - Como classifica o balneário do Braga. De zero a dez...
FCS - O balneário do Braga é muito bom e estou muito contente com ele. Daria uma nota oito...

SB - E a massa associativa?
FCS - Eu conhecia outra massa associativa quando por cá passei. Era mais interventiva e dava um maior apoio. Mas acho que vai também pouca gente ao estádio nesta terceira cidade do país. A massa associativa tem também que sentir o clube nos maus momentos.
 
SB - Que pensa da taça Intertoto?
FCS - A experiência que temos cá em Portugal dizem que não é boa. Em Espanha quase ninguém quer entrar nessa competição. Ou chegas ao final e entras na UEFA ou então é desgastar a equipa com um mês de competição e és penalizado por um maior esforço. Normalmente , traz mais inconvenientes que vantagens.

"NÃO ME DEIXO INFLUENCIAR"

Frontal, Fernando Castro Santos aceitou ser confrontado com algumas das suas opções tácticas e de estratégia. Por vezes, acusam-no de demorar nas substituições mas para o treinador do Braga " é preciso dar confiança aos jogadores. Não basta trocar por trocar. Isso faz qualquer um. Nas bancadas cada adepto tem dentro de si um treinador mas eu, como profissional baseio-me naquilo que vejo, sinto e percebo e não nos pedidos de substituições. Se fizera caso ao que dizem da bancada ou o que dizem os jornalistas, seria uma outra coisa que não treinador profissional de futebol."

SB - O Braga tem tido partes distintas...
FCS - Tudo depende do adversário e do próprio resultado. Depois, temos que saber manejar o resultado mercê do esforço físico dispensado e esta equipa é suficientemente inteligente para saber interpretar os momentos do jogo que não são todos iguais.

SB - Faltam extremos, homens que vão à linha de fundo...
FCS - Nós temos o que temos. Temos que sacar todas as virtudes dos jogadores. As pessoas inteligentes sabem o que existe e que existem lacunas que nãos e preencheram por deficiências económicas. Temos carências mas não as divulgo, é claro...

SB - É adepto de manter uma equipa tipo ou adapta a equipa ao adversário?
FCS - Hoje no mundo do futebol é difícil ter uma equipa tipo. Temos que ter um grupo de jogadores que sejam o santo-senha da equipa. Mas hoje temos que dosear os esforços

"PSICOLOGIA DESPORTIVA PARA PREPARAR O FRACASSO..."

O treinador do Braga, apoia o trabalho desenvolvido pela área de psicologia desportiva. " já trabalhei com vários psicólogos desportivos. Penso que quando começou esta tendência, havia falta de experiência e as primeiras fornadas de psicólogos não estavam, muito preparados para trabalhar com atletas de futebol que têm uma peculiaridade diferente. Agora acho que esta ciência evoluiu e estes especialistas são mais capazes. Acho que deveriam trabalhar sobretudo nas camadas mais jovens para ajudar a educar e fazer crescer um futebolista. Há muitos atletas que depois não estão preparados para o êxito, para o sucesso ou por outro lado para conviver com a desilusão e o fracasso. No futebol, geram-se muitas expectativas e muitas delas são ilusórias".
Fernando Castro Santos considera o trabalho psicológico muito importante e adianta que " no futebol se fala muito do treino técnico, táctico e física mas a minha experiência diz-me que a componente mental é muito mas muito importante. Uma equipa moralizada, com ilusão, solidária, com garra pode suprir muitas das deficiências noutros níveis". Apesar de ter sido aprovado com nota máxima na disciplina de psicopedagogia, Fernando Castro Santos não se considera um especialista e por vezes teve que recorrer a especialistas "para tratar as coisas de outra maneira"

"O SPORTING ESTÁ NO BOM CAMINHO"

Quisemos confrontar o técnico galego com aquilo que considera mais evidente entre a nossa Superliga -da qual FCS não gosta do nome - e o futebol espanhol. Depois de um largo suspiro como que a antever muita dificuldade para enumerar o que nos separa de "nuestros hermanos" sempre foi dizendo que " não existe uma régua de medição para medir estas diferenças apesar de considerar residir no aspecto económico uma das maiores diferenças". Considerando ser "superior o campeonato espanhol", acha que "as melhores equipas portuguesas dificilmente passariam da segunda metade do campeonato enquanto que a melhor lutaria nos quatro primeiros". Em Portugal, existem bons futebolistas porque " os miúdos têm capacidades natas para jogar futebol mas Portugal é um país exportador de futebolistas. Quando surgem os bons jogadores saiem. Se conseguissem manter os Pauletas, Rui Costas, Figo, etc o campeonato português seria muito melhor".

SB - Vamos imitando mal os melhores exemplos de Espanha. Veja-se o sucesso do Deportivo...

FCS - Isto levaria mais de uma hora para debater o que deveria acontecer no futebol português. Eu acho que vamos crescendo mas ainda temos muitas coisas em que temos de melhorar, sobretudo por detrás do próprio jogo. Não podemos discutir temas banais quando os problemas são outros. Se tivermos profissionais capacitados, o produto final do seu trabalho vai ser muito melhor mas acho que não é exactamente este o verdadeiro problema. Tenho esperança que possa haver uma transformação. O Sporting apesar de não estar no topo do campeonato está já uns furos acima no que diz respeito ao trabalho que deve ser feito. Deu passos seguros independentemente do resultado do domingo. Esse é caminho e podem começar com este exemplo que está bem próximo de nós.

"O NOVO ESTÁDIO MERECE UMA GRANDE EQUIPA"

A conversa estava a chegar ao fim e atiramos algumas provocações:

SB - É homem para ficar quantos anos em Braga?
FCS - Gostava de lutar por outros objectivos e mesmo este ano gostava de chegar mais acima mas prometeram-me que na segunda época teria um Braga mais capaz de atingir outros voos. Confio na palavra das pessoas e se no próximo ano vamos ter um campo novo e espectacular esse campo merece uma boa equipa e que todos nos sintamos identificados com ele. Estou convencido que ficarei muito tempo em Braga e agora continuo convencido apesar de tudo. Vamos ver se não me fazem trocar de opinião.

SB - A má prestação do Braga tem atirado para baixo a sua cotação em Espanha?
FCS - É evidente que sim. A bolsa de valores dos treinadores mede-se muito pelos resultados e não tanto pelo trabalho . É injusto mas é assim. Em Espanha, sou suficientemente conhecido para saber quem sou e o que posso fazer mas se estou entre os 4 primeiros sou melhor treinador do que se estivesse nos 4 últimos. Sigo e acompanho o futebol espanhol e quando existe um problema por lá, o meu nome é citado e como tal não estou desligado do futebol espanhol. Agora não temos fronteiras e temos que estar atentos a tudo.

SB - Agora surgiram os problemas directivos...
FCS - Deixam-me preocupado. Estas coisas mexem connosco e tenho pena até pelo presidente pois está a passar um mau momento. Todos gostaríamos de acabar a época juntos...

SB - Os jogadores estão à margem?
FCS - Não podem estar pois estamos todos no mesmo barco. Tentamos estar o mais tranquilos mas não podemos ignorar o que se passa .É a nossa profissão e a nossa empresa que está em causa. Em definitivo, é a nossa vida e temos que estar preocupados com isto.

Entrevista realizada no Sábado dia 08-02-2003.  ric
Fotografias de José Rodrigues