Entrevista exclusiva com o Prof. Agostinho Oliveira , actual seleccionador nacional de futebol.


Afável, crente nas suas capacidades e convicções, acessível, simpático, conversador, fluente na explanação das ideias e na teorização do futebol, eis o retrato simples do Prof. Agostinho Oliveira .
Depois de o termos desafiado para responder ás questões dos frequentadores do www.superbraga.com, o site não-oficial do Sporting Clube de Braga, o actual seleccionador nacional aceitou de imediato e mostrou-se agradado com a ideia.
Frontal e directo, mostra-se convicto de que pode ser o escolhido para a selecção A, recorda com saudade a sua passagem por Braga , declara que Quim não foi tratado da mesma forma que Fernando Couto pela FPF e confessa que ainda hoje fala com Queiroz acerca do seu Manchester.
Eis Agostinho Oliveira - em discurso directo - em resposta ás questões
dos cibernautas do SUPERBRAGA.COM:

PERCURSO POR BRAGA

SUPERBRAGA (SB) - Que recordações guarda da sua passagem por Braga?

Agostinho Oliveira (AO) - As melhores possíveis. A minha vida confundiu-se com Braga. Fiz nesta cidade o liceu, fui atleta do clube. Parti mais tarde para Coimbra e regressei com muito gosto ao Sp. de Braga. Tenho sempre na memória os acontecimentos de 1974-75 onde apresentei o processo de co-gestão e que implicou necessariamente a minha saída. Passei depois a minha travessia no deserto onde ao longo de 8-9 anos estive fora do futebol activo. Nessa altura, havia grandes dificuldades, não havia direcção, sucediam-se as
comissões directivas e os jogadores tinha 5 a 6 meses de vencimentos em atraso. Era penoso todos os anos formar uma equipa e nem sequer algodão e tintura de iodo havia. Sem sustento fixo, era grave o drama social de alguns jogadores e num período em que os ventos políticos forçavam a isso, optou-se por aquela solução. Foi quando se tomou consciência que o jogador teria que ter assistência social, por exemplo.
Era na altura presidente do Sindicato de Jogadores. Depois, é claro, saí do Braga e em 1983 após ter ficado entre os melhores num dos primeiros curso de treinadores nacional, o Nelo Barros chamou-me para ser director técnico de um curso de treinadores em Braga. Fiquei na Associação de Futebol como coordenador técnico e foi natural o regresso ao Braga nas mesmas funções. Estive cerca de 6 anos no clube até entrar em definitivo para a Federação em 89-90.

SB - Uma vez que "passou" por Braga, como vê a formação do SCBraga e os jovens da equipa B?

AO - Sempre uma formação marcada pela qualidade. O Braga tem um modelo bem marcado - bola junto do pé, com técnica e jeito, bem à imagem do futebol antigo do Braga. O futebol do Arsenal do Minho era apoiado, bem jogado e com qualidade técnica. O reforço da qualidade técnica foi sempre a base da formação no Braga.
Quanto à equipa B eu lutei muito por ela tal como os quadros competitivos do futebol jovem que ainda não estão impostos. Estas equipas são um trampolim para o futuro. Se estão debaixo da casa mãe implica que todas as pessoas estejam de olhos neles e que possam desenvolver o seu futebol de forma descomprimida e natural.

SB - O facto de ter no seu currículo uma ligação ao Sporting de Braga não o poderá inibir de convocar jogadores deste clube para evitar críticas?

AO - Não. Nas camadas jovens procurei privilegiar jogadores que eu conhecia bem e muitos deles estavam no Braga e noutros clubes da região. O caso do Quim é evidente. Era suplente e fui eu que o coloquei a titular quando fomos campeões de sub-18 em Mérida.
Não há problema nenhum. No entanto, não deixo de dizer que os jogadores de clubes grandes têm outro impacto por jogarem em grandes equipas com outra preparação. Estão alardeados de companheiros mais valorosos que os levam a ter outro ritmo e capacidade. Mas vou levar outros
jogadores sem serem dos grandes.
Gostei de ver o recado do Barroso. É um grande jogador e está num bom momento. Conheço-o muito bem mas a sua idade faz-me pensar duas vezes. Não vou promover jogadores de momento para os liquidar depois. Não faria sentido toda a reformulação que estou a tentar fazer na selecção nacional.

QUIM NÃO TEVE O MESMO TRATAMENTO DE FERNANDO COUTO

SB - Gostaria de saber o porquê da não convocação do Quim, uma vez que após os primeiros jogos
do campeonato apenas foi dos melhores em campo. Os guarda redes convocados foram-no com a justificação de competirem ???)...Competir? Na mesma medida que o Ricardo e o Vítor Baía competiram, o Quim também o fez.

AO - Está bem debatida esta questão. Se há lugares em que a atitude competitiva é importante é a de guarda-redes. Não se adquire esta disponibilidade só a treinar. É fundamentalmente no domingo a domingo .
As pessoas não leram muito bem as coisas. O próprio Quim deu recentemente uma entrevista em que dizia compreender a situação mas que também se sentia satisfeito em ser a terceira opção pois já antes afirmara que o Quim ficaria em stand-by para o caso de alguma contrariedade.


SB - Houve um caso anterior de um jogador de Selecção que acusou positivo, o Fernando Couto. Este teve direito a tratamento especial, conferencia de imprensa para demonstrar solidariedade e apreço ao jogador. Foi convocado, embora sem competir para um amigável. Que comentários faz a esta dualidade de tratamento?

AO -Sinceramente acho que sim. Fui dos primeiros a insurgir-me na FPF contra o procedimento criado no caso do Quim em relação ao que se passou com o Fernando . Na sua situação fomos a Itália, fizemos conferências de imprensa, etc, etc. Falei com o presidente da federação, ficou de se estabelecer uma outra atitude mas infelizmente veio o Mundial e todos os preparativos acabaram por atirar esta situação para o esquecimento.

IDENTIFICO-ME COM QUEIRÓS

SB - Considera-se um "Queirosiano"?

AO - Claramente. A sua influência positiva sobre a minha personalidade é notória. Claro que temos diferenças. Eu tive um percurso diferente, vim de dentro e o Carlos não teve. Mas em termos de metodologia, sim sou um queirosiano. Trabalhei com ele e conheço a sua maneira de treinar e preparar os jogos. Bebi muito daquilo que expressou, continuo a ser seu amigo e a falar regularmente com ele.
Somos amigos e contactamos pelo menos uma vez por semana onde falamos do seu trabalho e do Manchester


SB - Integra com Rui Caçador e António Violante um grupo tido como "teórico" no seio da FPF. Caso seja seleccionador nacional quer chamar a si todo o edifício do futebol em Portugal em áreas como a formação, as amadoras, a divulgação da modalidade e a estrutura desportiva?

AO - Temos que ter sempre em mente a abrangência global de todo o futebol e numa perspectiva vertical. Quanto mais o treinador entender o que se vai fazendo no desenvolvimento dos jogadores melhor é o conhecimento da personalidade competitiva deles. Eu não vou entrar no âmbito de daqui a dois anos conhecer os jogadores. Eu já os conheço perfeitamente. Se nos envolvermos neste acompanhamento activo do desenvolvimento dos atletas sabemos quais os seus defeitos e virtudes e o seu perfil psicológico.
Esta realidade só se faz se for o vértice da pirâmide.

SB - Considera essencial para Portugal a criação de um modelo de
futebol, assimilado desde os escalões de formação e com o seu expoente na selecção A ?

AO - Nós já o temos. Temos características próprias mas depois vimo-nos afirmando através dos personagens. Temos um modelo e tenho-o dito sempre com coerência. Um trinco ou médio centro pode ser o primeiro central se a equipa adversária apostar em dois pontas de lança. Isto está caracterizado desde as camadas mais jovens . O médio centro, por exemplo, sabe o que tem de fazer, os laterais sabem que como a equipa passará de um 4X3X3 para um 3X4X3.
Isto é um trabalho que vai passando de seleccionador para seleccionador, discutido no seio do corpo técnico da federação e talvez pouco claro para a maioria dos adeptos.


SUPERLIGA DEVERIA TER MENOS CLUBES

SB - Qual a sua opinião em relação a esta nova SUPERLIGA? O campeonato esta mais competitivo?

AO - Sou de opinião forte que o campeonato deveria ser reduzido. Reduzir era dar qualidade ao campeonato. Temos uma Superliga remediada. Deveríamos ter a Superliga com um determinado caderno de encargos e quem não o tivesse não poderia participar. Os clubes melhor consolidados iriam ter outras oportunidades e forma de competir diferente. Então aí expressava-se um melhor índice competitivo e apareceria a qualidade.

SB - Todos os dias assistimos os "agentes" do futebol a dar "tiros nos pés"...é polémica da arbitragem, é a relação entre as SAD´s, insinuações, acusações...Acredita no nosso futebol, ou urge mudar algo?

AO - Acredito plenamente. Nós que estamos por dentro temos uma missão diferente: temos de credibilizar o futebol. Temos que definir regras e critérios . Uma vez estabelecidas temos que ser coerentes em seguir estes pressupostos. Caso contrário, o futebol português continuará a cair em diálogos e polémicas infrutíferos que não levam a lado nenhum e que só o descredibilizam.

SB - Como viu a recandidatura de Gilberto Madaíl?

AO - A candidatura do Dr. Madaíl não deve ser julgada pelo Mundial . O Dr. Madaíl tem uma grande vantagem de conhecer profundamente todos os dossiers que envolvem a Federação e o EURO 2004. Entendo que qualquer candidato à Federação quando tivesse entrado neste processo já o Euro tinha passado.

NUNCA SEREI ADJUNTO DE MANUEL JOSÉ

SB - Sem ter grande experiência em treinar equipas de clubes, pensa estar em condições de treinar uma selecção ?

AO - A selecção é completamente diferente de um clube. Na selecção, vemos crescer os jogadores, definimos uma estrutura, temos que ter capacidade de fazer análises e estas não têm muito a ver com a parte colorida do jogo mas sim com a parte cinzenta, a parte parda que é aquela mais difícil aos olhos de observar. Ter efectuado imensas estruturas e análises de jogos e definir o que convém e não convém com tudo o que temos em nosso redor. O trabalho do seleccionador é conhecer, ter profundidade no conhecimento. O trabalho nos clubes é diferente. É um trabalho no dia a dia, fundamentado na correcção e na prática. Na selecção, evidencia-se o conhecimento

SB - Quer mesmo ser seleccionador com esta federação (presidente) que manda embora o treinador ao primeiro desaire?

AO - Não tenho grandes dificuldades em ser seleccionador seja com quem for.

SB - Com a influência que pessoas como o Major Valentim Loureiro que possibilitam a eleição do presidente da FPF, tem na escolha do futuro treinador acha que tem alguma hipótese de continuar neste cargo visto que - continuando a dar o major como exemplo - este já disse que o seu favorito para o cargo de seleccionador nacional era o Manuel José. Isso preocupa-o?

AO - Não. Em absoluto. Se se definir que Manuel José será o próximo seleccionador, em termos de relação profissional só poderá ter da nossa parte colaboração franca e aberta e um apoio à semelhança do que sempre aconteceu naquela casa.
Agora eu nunca seria adjunto do Manuel José.. Por sintonia com todo o grupo de trabalho e de respeito para com o grupo que o Manuel José quererá impor se for seleccionador

SB - Como Seleccionador interino, não acha que a fasquia está colocada bem alta (Portugal, finalista???). Como encara este desafio? Não acha que a planificação tal como está actualmente não permite grande margem de manobra para o seleccionador

AO - Aceito o desafio consciente das implicações que tem. Estar a jogar em Portugal e não ser campeão ou andar por lá perto, não vai ser situação fácil. Acredito nos homens e na matéria humana que tenho à minha volta. Como os conheço, não tenho dificuldades em aceitar a responsabilidade e ir para a luta.

SB - Aceita qualquer manager imposto pela FPF para as selecções se for o próximo treinador nacional?

AO - Logicamente que não. Eu acho que muita gente não sabe a que corresponde esta imagem de manager. O manager é um indivíduo que cresceu por dentro e identificou-se com a filosofia interna, criou imagem e carisma e a determinada altura pela sua experiência criou também abrangência. Está no topo da pirâmide. Ora eu sinto-me, dentro da Federação claro, com a possibilidade de ser um manager correspondendo a esta imagem que se têm.
Agora que eu saiba, nunca foi discutido a sua área de acção e os objectivos deste cargo e até não sei se corresponderia a esta imagem que dei. Parece que seria - por uma entrevista do presidente - algo que ligasse mais os jogadores à selecção. Uma parte mais administrativa ou sócio-comportamental que lidasse com questões de prémios e impostos , por exemplo...

SB - Carlos Silva o novo responsável das selecções
pela FPF, referiu "Agostinho Oliveira é um bom profissional e um técnico competente, mas o futuro a Deus pertence. Às vezes a competência não chega...". Que comentários faz a estas palavras? Está a premiar-se a incompetência no nosso futebol?

AO - Talvez o Sr. Carlos Silva não quisesse dizer isso. Ele sabe muito bem com quem lida. Eu sinto que à minha volta estão os olhos todos colocados. Sei que tenho apoios em termos da direcção, os jornais manifestam-se e o público também. Olhe, tive muita pena que o jogo com a Inglaterra não tivesse sido televisionado porque foi fruto de um trabalho que quero continuar a fazer. Temos de falar de futebol, ser-se futebol, evidenciar-se futebol e é isto que os jogadores querem. A realidade conheço-a bem.

ESCOLHAS

SB - Gostaria de saber se vai continuar com a politica de chamadas à selecção, tendo em conta os clubes que os jogadores representam, ou seja, chamando essencialmente ou "internacionais" e os jogadores dos chamados grandes.
Alguns exemplos para lembrar da última convocatória: Paulo Ferreira, Nuno Valente, João Manuel Pinto...

AO - O Nuno Valente, por exemplo, já tinha sido chamado para as selecções.
O Paulo Ferreira foi lançado a lateral direito por mim num jogo com a Holanda. Mais tarde no Setúbal jogou nesta posição. O Paulo é um sub-21 e se jogasse no Setúbal chamava-o. Ainda noutro dia disse que o Zé Nando poderia ser uma opção. Pode agora aparecer alguém do Guimarães ou do Belenenses, é evidente que estes jogadores têm expectativas e não as quero defraudar. Tenho pena que alguns estejam a suplentes ou a jogar em posições diferentes das que eu acho que deveriam jogar por motivos de ordem interna. Sinto que o futuro vai ser deles.

SB - Fala-se na renovação da Selecção. Até onde acha que pode ir tal renovação...Há jogadores "intocáveis" que em 2004 poderão estar em fase descendente da sua carreira. Qual acha que deverá ser a "politica" a seguir? Lançar jovens promessas no imediato, preparando o 2004, ou paulatinamente introduzi-los na Selecção, e correr o risco de chegada a altura do evento e estes não terem o "espírito" de Selecção ?

AO - Existe na realidade um défice bastante grande de laterais de valia e jovens. Se queremos trabalhar para o futuro eles devem trabalhar já. Pode acontecer que tal como em relação aos pontas de lança ficarmos reduzidos ao espaço Nuno Gomes e Pauleta e eventualmente estar a pensar que um Pepa , um João Paulo do Varzim, do Rui Miguel e outros serão situações de futuro mas que não estão neste momento no activo. Estou com os olhos neles e noutros casos como o Carneiro e o Paulo Alves já não são propriamente jovens para lhes poder " dar corda"

SB - Acha que o facto de um jogador pertencer a um dos 3"G" influencia na convocatória? Porquê?

AO - Eu entendo que na realidade existe uma percentagem de influência. Eles têm tendência a ter os melhores jogadores , andam nos primeiros lugares e o nível exibicional é evidente. É normal expressarem níveis de qualidade melhores porque a qualidade de conjunto é maior. Se têm qualidades natas, é natural que com a integração possam fazer com que se expressem cada vez melhor.
Tenho 4 ou 5 jogadores na selecção de esperanças que poderiam aparecer. Estou á espera do momento próprio. Não quero também tirar a identidade própria a esta equipa de esperanças e este é um dilema que tenho. Eles têm responsabilidades em relação ao campeonato da Europa que também dá apuramento para os Jogos Olímpicos. Tem que haver serenidade e bom senso para que neste momento não se toque nestes jogadores.
Quero consolidar um grupo forte identificado com a mistura da experiência e a juventude ou menos jovens que agora tenham 27/28 anos
Vou mexer alguma coisa proximamente até por causa dos adversários. A Tunísia vai ser muito difícil.

SB - Sendo o Vítor Baía suplente do F.C.Porto, quem será o próximo guarda-redes a ser convocado?

AO - Tem que haver critérios e regras que pretendo fundamentar e que têm a ver com o tipo de enquadramento em que os jogadores se encontram. Tem de haver respeito pela entidade.
E logicamente tenho que respeitar o que a instituição fez ao Vítor. Tenho que arranjar soluções para ultrapassar a ausência do Baía mas mesmo se ele não tivesse sido suspenso, o Vítor já não era utilizado pelo seu treinador à algum tempo. Isso legitimava também da minha parte o respeito pelo colega que tomou aquela opção. Temos é que conseguir que estas lutas passem à margem da selecção e que sejam cumpridos os critérios e regras impostas.


Entrevista realizada no final do jogo Braga 4 - Sporting 2.
Braga, 28/09/2002  ric